quinta-feira, 17 de maio de 2007

O lado b do maestro



Fátima Guedes continua a mil. Cantora e compositora com mais de três décadas de carreira, ela, ao contrário de tantos outros nomes, tem mantido o arco da sua criatividade sempre teso.

Carioca nascida no subúrbio, ela teve seu reconhecimento público conquistado junto ao boom de compositoras femininas ocorrido na MPB no final dos anos 70, despontando para o sucesso ao lado de Sueli Costa, Joyce e Ângela Rô Rô.Nas vozes de Wanderléia, Nana Caimmy, Simone e Elis Regina, suas canções realçaram aquilo que desde sempre tiveram: coesão, densidade e qualidade insuspeitas.

Prestes a completar 50 anos em 2008, Fátima nos brindou recentemente com seu “Outros Tons”, álbum que tem como base o repertório pouco conhecido do maestro soberano Tom Jobim (1927-1994). São canções até então encobertas pelo tempo, perdidas entre os clássicos já interpretados pelo nosso maistren musical.

Idealizado e produzido por Marcus Fernandes, o álbum apresenta 12 faixas que cobrem o período de 1953 a 1964, ou seja, antes do nascimento oficial da bossa nova (1958) e depois de seu reconhecimento internacional, ocorrido no histórico show do Carneggie Hall, em Nova York (1962).

Trata-se de um verdadeiro mergulho sentimental na primeira fase da carreira do maior compositor moderno brasileiro, quando este, ainda jovem e recém casado, ganhava a vida nas famosas boates de Copacabana, como Ranchinho do Alvarenga, Vogue, Bambu Bar, Tassa, Mocambo, Tudo Azul, French Can-Can e Acapulco.

“Não era fácil. Tom chegou a desconfiar daqueles que previam a sua morte por tuberculose, pois o trabalho na noite não se limitava à tarefa profissional propriamente dita, mas um ritual que incluía uma boemia fundamental para o próprio trabalho”, fez registrar o jornalista Sérgio Cabral em seu livro sobre Jobim.

“Outros Tons” reinventa, com apuro técnico e originalidade, todo o ideário bossanovista (amor, dor, tristeza e alegria), sobretudo, pelas pelo clima intimista que determinados arranjos ganham a cada audição. A voz da intérprete oferece todo seu talento e delicadeza, valorizando as harmonias e melodias sofisticadas e acessíveis do compositor.


Madrugadas intermináveis

Fátima vem acompanhada por Paulo Midosi (piano), Ronaldo Diamante (baixo) e Élcio Cáfaro (bateria), que juntos, reconstroem o clima de uma época outrora delicada, um Rio de Janeiro mítico, cuja atmosfera podia ser ouvida em suas músicas.

Há preciosidades como as duas primeiras canções gravadas de Tom. Em “Faz uma semana” (Jobim/João Stocler), de 1953, os versos traduzem um estado de espírito. “Faz uma semana/Que não vejo o meu amor?/ Faz uma semana/Que eu não sei onde estou/De manhã cedo/O sol tão claro,/Dói nos meus olhos/Como me dói esta saudade/ De você, de você”. Minto?

Já no caso de “Incerteza” (1956), estamos diante de um pequeno achado da pioneira parceria do maestro com o pianista Newton Mendonça. Amigos de infância e noitadas, ambos mostram neste samba-canção o que o gênero tem de melhor.

A dupla reaparece em “Lua e batucada”. Samba moderno e urbano, datado de 1957, que puxa o cordão da alegria em versos inesquecíveis. “Fala bateria!/Bate meu pandeiro!Despeja tamborim!Assim../Que este samba é/Dono do terreiro/Manda na cidade/Sacode o mundo inteiro”, ponteia o refrão.

Piano solitário

A cantora e compositora reavalia o lado letrista de Tom gravando três canções representativas do período. “Olha pro céu” (1960) - grande momento introspectivo cercado de lirismo, “Pra não sofrer” (1962) e “Pensando em você” (1953).

Canções estas que exemplificam temas caros ao compositor, como é o caso da ecologia (“Velho riacho/Que vem lá de serra/Cantigas antigas/Me contou”) e o amor no cotidiano (“Eu vivo sempre a esperar/Um dia a mais, outra canção/Eu cantei pra saudade enganar”).

Parceria eterna

Tom Jobim e Vinícius de Moraes simbolizaram um casamento perfeito dentro da MPB. Música e letra da mais alta estirpe. Eles se conheceram em 1956, no famoso Villarino, bar de Copabacana que abrigava a nata da intelectualidade carioca. Uma parceria breve, mas eterna.

Fátima pesca ainda duas belas canções deste período fértil da dupla. A primeira é o samba “Na hora do adeus” (1960). Nos versos, o poetinha manda seu recado sem choro nem vela. “O amor só traz tristeza/Saudade, desilusão/Porém maior beleza/Nunca existiu pra iluminar/Meu pobre coração”.

Segue-se “Vida bela (Praia branca)”, já gravada pela inesquecível Elizeth Cardoso em seu emblemático LP “Canção do amor demais” (1958). Perdida entre outras obras-primas do disco, ela novamente ressurge, mostrando toda plasticidade de imagens e sua riqueza sonora.

Há também duas parcerias com Luiz Bonfá, compositor versátil, capaz de criar pequenos clássicos como a “Chuva caiu” (1956) e “Engano” (1964). Gol de placa.
"Outros Tons” se consolida como um marco importante na ampla discografia dedicada à obra do maestro. Prova de que sua música permanece como uma inesgotável fonte de pesquisa para novas aventuras como está empreendida pela artista.

Violões endiabrados




Um parêntese. Vale destacar o trabalho do grupo Maogani. Quarteto de violões formado por Paulo Aragão, Carlos Chaves, Marcos Alves e Maurício Marques. Músicos de formação erudita e popular que ultimamente estão renovando a música brasileira contemporânea.

Com três álbuns no mercado, dois pela Rob Digital, “Maogani” e “Cordas Cruzadas”, o grupo une técnica e sensibilidade em um repertório eclético, cujas influências passam pela música popular brasileira, o jazz e a música latino-americana.
Apadrinhados por ninguém menos do que carioca Guinga, um dos maiores violinistas e compositores brasileiros contemporâneos, o Maogani ganhou a cena na segunda metade da década de 90. Recebendo as bênçãos do também do compositor Aldir Blanc e a cantora Leila Pinheiro.

Novos arranjos e interpretações para antigos clássicos. Está parece ser a fórmula encontrada pelo quarteto para arejar, por exemplo, “Morro Dois Irmãos” (Chico Buarque), cujo arranjo originalíssimo emociona. O mesmo se dá com “Passaredo” (Chico Buarque/Francis Hime) e “Cai dentro” (Baden Powell/Paulo César Pinheiro).

Na cozinha sonora do Maogani há espaço para os mais variados condimentos estilísticos: choro, baião, samba, valsa, milonga etc. Os álbuns trazem ainda participações especiais, como Ed Motta, Joyce, Jane Duboc, Guinga, Mônica Salmaso, Celina Vaz, entro outros.
Simplesmente divino!

terça-feira, 15 de maio de 2007

Erotismo, rock and roll e uma espatódea no jardim de Nando Reis



Sexta-feira. Dia 11 de maio de 2007. São quase 17h. Saio da redação às pressas pois tenho o compromisso de pegar minha credencial para entrevistar Nando Reis, cujo show acontece na mesma noite, no centro de eventos Expo Lavras Show (Lavras-MG). Evento organizado pela DW Promoções em parceria com a DM Promoções.

Chego na hora marcada. Missão cumprida. Enquanto espero pelo início da coletiva com o cantor e compositor (que iria rolar somente quase três horas depois, acreditem!), vejo que no palco já montado a ladainha de sons da “tchurma” do Nando tem início: Alex Veley (teclados), Carlos Pontual (guitarra), Diogo Gameiro (bateria) e Felipe Cambraia (baixo). O fumacê denúncia: são Os Infernais. Em carne, osso e ruídos.

O cenário em branco e preto reproduz os crustáceos da capa de seu último CD “Sim e Não”, lançado no ano passado. São formas fálicas, côncavas, misteriosas, que rementem à eroticidade mesma do álbum. “Me dê seu leite como meu licor/Me dê seus peitos cheios de amor/Me dê um beijo sem nenhum pudor/E você me penetra”, diz a letra de “Monóico”.

Passagens de som costumam ser interessantes. Os músicos se entregam. Não há uma platéia centrada, só um público maroto, descompromissado e curioso que se mistura aos roudies. Por um triz a vida parece ser doce. E tome acordes, afinações, vocalizes e luzes.

De repente, nosso tão aguardado convidado chega. Veste um índigo blusão (perdão, São Gilberto Gil!) que contrasta com o cachecol vermelho esvoaçante em seu pescoço. Nando brinca com os músicos. Ri. Dá uma tragada no cigarro e faz o seu showzinho particular. Rolam as pedras. “Sim”, ‘Segundo Sol”, “Sou dela”, “Etc”, “Tentei fugir” e outros petardos. Sobra até um “Lindo balão azul”, tema pimpão da lavra de Guilherme Arantes, que, por estranhas razões, ficou fora do show que começaria a 1h da manhã de sábado, dia 12. O qual encarei de frente, mesmo quase congelando embaixo do meu casaco de veludo por causa do frio. Não ia perder a melhor turnê do cara. Redondinha e cheia de canções libidinosas.

Câmeras, microfones, gravadores em ação. Começa a coletiva em um camarim minúsculo e improvisado. São 20 minutos que parecem uma eternidade. Nando fala de forma concisa e sobre temas variados.

O Nada Será Como Antes não ficou só com esse mérito. Partiu para o ataque. Prova é o bate-papo rápido e rasteiro com a percussionista Elaine Moreira, a Lan Lan - que passou a tocar ao lado de Nando e Os Infernais nesta fase final da turnê do álbum “Sim e Não”, o qual você confere logo mais abaixo (ver postagem "O lance de dados de Lan Lan"). Divirtam-se!

A saída dos Titãs

"Eu permaneci 20 anos nos Titãs. Saí no final em 2002. Foi um processo natural. Tenho orgulho ter feito parte desta história. Acredito que a gente deu uma contribuição para a consolidação do rock nacional, como uma força da música brasileira. O grupo trouxe mudanças de cenário para o mercado. Foi um legado"

Os 20 anos de lançamento de Cabeça Dinossauro

"Ele é um disco importantíssimo não só na minha história e dos Titãs, mas no do rock and roll. É um disco-símbolo, como o foram “Selvagem”, do Paralamas do Sucesso, e “Nós Vamos Invadir sua Praia”, do Ultraje a Rigor. Estas datas de certa maneira servem mais para rememorar. “Cabeça Dinossauro” está dentro do seu tempo. Está é sua força. Ele é muito expressivo sobre a situação do Brasil e o tipo de relação que a juventude tinha dentro daquele cenário pós-ditadura, onde havia resquícios de repressão e uma tentativa de estabelecimento das liberdades. Cabeça Dinossauro foi censurado em duas faixas: “Igreja” e “Bichos Escrotos”"

Igreja

"É curioso estarmos falando de “Igreja” (música e letra de autoria de Nando Reis) neste momento em que o papa está visitando o Brasil. Não tenho qualquer peso por ter escrito está música. Meu pensamento é um pouco parecido com o daquela época no que diz respeito a este assunto. Talvez um pouco mais tolerante do que fui. Para fazer uma canção como está é necessário ter um pouco de iconoclastia e inconseqüência. A expressão contestatória exige um certo desprendimento"

Novo disco

"Não tenho medo de nada, bicho. Eu faço o que gosto. Acho que o disco [Luau MTV] tem um sentido artístico. Não estou nem aí para o que a imprensa diz. Este disco surgiu de forma meio inesperada, entendeu? Era para ser somente um programa de televisão que iria virar DVD. Mas ficou tão bonito, que a gente resolveu lançar em CD. Quem quiser que compre, quem não quiser, que ignore. Por que eu haveria de me boicotar?"

Espatódea

"A música “Espatódea” eu fiz para a minha filha chamada Zoé. Ela é a única ruiva dentre eles. Eu já tinha feito uma música para o meu filho Sebastião (“O Mundo é bão, Sebastião”), então ela me requisitou uma. Ficou muito linda a música. Eu acho que é uma das coisas mais bonitas que fiz. Ela entrou na novela das oito, Paraíso Tropical, e está tocando. É muito bom ver as pessoas as pessoas cantando ela"

Cássia Eller

"(Visivelmente desconcertado) Isso é uma merda, né bicho?! Perder uma pessoa tão próxima, importante e jovem dessa maneira idiota. Pessoalmente é uma tristeza enorme sempre. Ontem eu estava dando entrevistas sobre o Luau [MTV], quando um repórter me perguntou: “Pô, a Cássia estaria aí, né? Eu disse: claro!”. De vez em quando vem a recordação do absurdo que é uma pessoa tão presente não estar mais entre a gente. Eu perdi três amigos em um curto período de tempo: ela, o Marcelo [Fromer] e o Tom Capone. As pessoas são insubstituíveis, né? "

Biografia de Roberto Carlos (sobre a decisão judicial que suspendeu a comercialização da biografia do rei, “Roberto Carlos em Detalhes”, de autoria do historiador e jornalista Paulo César Araújo).

"Eu achei meio bobo (...) Mas sei lá, por outro lado, cada um faz o que quer e paga o preço. Não posso julgar o Roberto. Não li o livro, mas parece que é uma pesquisa séria. Por outro lado, fala da vida dele e ele tem o direito de se incomodar com isso"

Planos futuros

"O principal é lançar a turnê do “Lua MTV”, que começa no final deste mês (26 e 27 de maio no Citbank Hall, em São Paulo). O negócio é continuar na estrada"

Um lance de dados com Lan Lan


A primeira impressão que a gente tem ao entrevistar a percussionista Elaine Moreira, a Lan Lan, é que há em seu olhar uma delicadeza ímpar. No palco, as coisas se transformam num imenso cataclisma. É como se todos os orixás de sua amada Bahia se reunissem por alguns instantes em torno dela para discutir alguma celeuma.

Confira abaixo um bate-papo que o Nada Será Como Antes conseguiu com exclusividade com a ela. A conversa aconteceu na sexta-feira, dia 11. Lan Lan esteve participando de um show de Nando Reis e Os Infernais realizado na cidade de Lavras (MG), nesta mesma data (ver postagem:“Erotismo, rock and roll & uma espatódea no jardim de Nando Reis”).

Como é voltar a tocar com Nando Reis?
Pra mim, é maravilhoso estar de volta com o Nando. Sou uma ancestral dos Os Infernais. Toco com ele há bastante tempo, desde o álbum “12 Janeiro”, seu primeiro disco. Ele é meu amigo e parceiro querido de longas datas. Antes de tocar com a Cássia [Eller], eu tocava na banda do Nando. Eu e ela nos conhecemos num show dele.

Passados cinco da morte de Cássia Eller, você acha que o legado dela está sendo explorado pelas novas gerações?
Acho que a vida e a música ficaram mais sem graça sem ela. Que bom que o Nando está aí para manter está tribo, este legado. Eu e ele fomos e somos da turma da Cássia, então é bom a gente estar junto.

Você tem uma formação musical acadêmica ou autodidata?
Sou baiana e comecei a tocar bateria muito cedo em Salvador, onde fiz parte de uma banda de rock chamada “Rabo de Saia”. Depois eu fui para a percussão e o violão, chegando a compor. Trabalho com música desde os 16 ou 17 anos.

Quais os trabalhos que você destacaria ao longo de sua carreira?
O meu primeiro trabalho como percursionista foi com o Carlinhos Brown. Toquei com a Elba [Ramalho]. Fiz duas turnês com a Marisa Monte, “Cor de Rosa e Carvão” e “Barulhinho Bom”. Toquei ainda com Tim Maia e Nelson Gonçalves. Foram trabalhos que me deram uma base de vários estilos musicais diferentes.

A gente sabe que nem sempre os músicos brasileiros tiveram o devido respeito e seus trabalhos valorizados. Para você, o trabalho da categoria está mais bem reconhecido hoje em dia?
Não tenho do que me queixar. Tenho uma boa carreira, tocando, acompanhando e gravando. Fiz meu disco solo em 2002 ("Com ela"), o qual ganhei o APCA (Associação dos Críticos de Arte) em 2002. Tenho um trabalho musical de composição que também está aí na roda.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Neta do Poetinha em Fase Madura


Mariana de Moraes chega com tudo em “Se é Pecado Sambar” (Lua Music), seu primeiro CD solo lançado no Brasil. Ela ressurge depois de um longo período de hibernação. Seu último registro fonográfico aconteceu em 1997 ("Alegria Continua"), quando esteve ao lado de Zé Renato e Elton Medeiros.

Neta do compositor e poeta Vinicius de Moraes (1913–1980), a cantora tem no currículo duas décadas de atividade artística, que inclue, além da música, cinema, teatro e novelas. Mais recentemente, ela deixou os marmanjos embasbacados com sua aparição relâmpago (estou entre eles, ok?) no documentário sobre seu avô, “Vinicius”, de Miguel Faria Jr.

“Se é Pecado Sambar” foi lançado nos Estados Unidos em 2001 e no Japão, em 2003. A idéia partiu do arranjador, compositor e pianista Guilherme Vergueiro, que fez a proposta para a interpréte. Depois do convite aceito por ela, o projeto foi encampado por um selo norte-americano.

Mariana é acompanhada pelo carioca Carlinhos Sete Cordas nos violões e cordas. No repertório há espaço para o ecletismo. A cantora passeia por estandartes bossanovista e jazzísticos, como “Fotografia” (Tom Jobim) e “I Fall In Love Too Easily” (Kahn/Styne), além do sambinha “Agora é Cinza” (Bidê/Marçal), entre outras belezuras. Simplesmente delicioso!

O Mago Contra o Rei

“Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da “invasão de privacidade”já não fosse mais do que conhecida pelo fãs”

Frase retirada do artigo “O que é ‘contexto desfavorável’”?, do escritor e compositor Paulo Coelho, publicado no Jornal Folha de São Paulo, desta quarta-feira, dia 2. O texto faz referência a decisão da Justiça de proibir a fabricação e a venda da biografia “Roberto Carlos em Detalhes” (Editora Planeta), do historiador e jornalista Paulo Sérgio Araújo. (ver postagem abaixo).

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Nos Bailes da Vida

Os caras continuam mandando bem. Kiko, Nando, Serginho, Paulinho, Cleberson Horsth e Ricardo Feghali - leia-se Roupa Nova, não por acaso, já fazem parte do templo da música pop nacional.
O sexteto de multi-instrumentistas de primeiríssima qualidade despontou para o sucesso no início da década de 80 embalando corações e mentes, levando-os ao Olímpo da música acessível, leve e trabalhada, sem, contudo, cair no kitsch simples e puro.

Eles tocaram e cantaram com senhores e senhoras respeitados da nossa MPB - Gal Costa, Erasmo Carlos, Milton Nascimento, Simone, entre tantos outros, sem perder aquela delicadeza e ingenuidade, que hoje, nestes tempos neoliberais, virou sinônimo de cafonice antiutópica.

Quem aí não se lembra (podem cantar ou assobiar, ok?) de composições tão conhecidas quanto consagradas, como “Canção de Verão”, “Whisky A Go-Go”, “Sapato Velho”, “Dona”, “Coração Pirata”, “A Viagem” e dezenas de outras que ajudaram a arejar as nossas sacrossantas novelas diárias?

O Nada Será Como Antes publica abaixo uma entrevista inédita com o Roupa Nova, realizada em 22 de julho do ano passado, depois de uma apresentação na cidade de Lavras - MG. Na época, o grupo se preparava para lançar o álbum RoupAcústico II. A fórmula do projeto, embora elaborada de forma um tanto palatável entre muitos artistas brasileiros (alô, MTV Acústico!), realçou, de maneira honesta e coerente, diga-se de passagem, o trabalho do grupo.

Nossa conversa rolou com Paulinho e Ricardo Feghali, momentos depois do show, já no início da madrugada, no hall do apart-hotel em que a banda estava hospedada. E foi lá, entre o vozerio de tietes paulistanas que lotavam o local, que ambos analisaram um dos momentos mais marcantes da carreira do conjunto.

- Falem sobre o projeto “RoupAcústico”, lançado em 2004, que pode ser considerado um marco na carreira do grupo.
- Paulinho - São dois projetos muitos sérios e aconteceram na hora certa. Nós sempre tivemos vontade de registrar um de nossos shows em VHS e nunca conseguimos por causa das gravadoras. Por isso, montamos um selo, o Roupa Nova Music, e decidimos gravar um CD ao vivo, o “RoupAcústico I” acompanhado de um DVD. Foi um sucesso de vendas nos dois formatos.
- Feghali - Nós acabamos de gravar o CD e o DVD do “RoupAcústico II”, que vai sair em setembro.

- Como acontece o processo de criação do grupo?
- P. - Cada membro da banda tem uma maneira de criar e tem suas influências. Por exemplo, o Kiko traz o rock'and'roll, o Ricardo tem uma levada mais romântica e o Nando tem uma forte influência da música country americana.
- F. - Os arranjos são feitos de forma coletiva. Já as composições acontecem isoladamente. Geralmente eu e o Nando fazemos as letras.

- As músicas do grupo embalaram temas de novelas da Rede Globo de Televisão, programas da mesma emissora, entre outros. Esse segmento ajudou a consolidar o trabalho de vocês?
- P. - Nós trabalhamos durante muito tempo para o departamento musical da Rede Globo e a gente fazia de tudo: temas de novelas e músicas incidentais. Nosso primeiro produtor foi o Mariozinho Rocha (diretor de trilhas sonoras das novelas da emissora). Muitas vezes nós compúnhamos a canção e outras vezes elas já estavam prontas. Nós conseguimos colocar 27 músicas em 26 novelas.
- F. - Foi um trabalho importante. Na verdade, é como uma faca de dois gumes. Às vezes as canções são boas, mas acabam sendo utilizadas como temas de personagens fracos.

- Durante muito tempo, o grupo manteve uma relação forte com a mídia. Hoje, ela parece ter perdido força, relegando vocês a um certo ostracismo. Como vocês analisam essa questão?
- P. - Não considero um ostracismo estar fora da mídia. Desde o início nós queríamos fazer uma carreira e não um “boom”. Ficamos longe da televisão, mas continuamos a fazer os nossos discos e shows. As nossas vendagens de CD's não caíram. Prova disso é o sucesso do RoupAcústico.
- F. - Eu gostaria de saber qual ao artista, com 26 anos de carreira, que conseguiu ficar na mídia 100%? O que acontece é que o artista tem as suas variáveis. Ele precisa sair um pouco de cena para se reciclar e saber o que está acontecendo. Foi isso o que aconteceu com a gente. Nós fazemos cerca de 100 shows por ano.

- Vocês são considerados grandes músicos pela nata da MPB (Música Popular Brasileira). Como foi a formação do grupo?
- P.- A nossa escola é a da vida. Nós começamos a tocar nos bailes. Hoje temos músicos famosos tocando diversos instrumentos por meio de fitas de VHS. Na nossa época, não tinha nada disso. Nós pegávamos os discos e ouvíamos milhões de coisas diferentes. Isso nos deu uma bagagem muito grande.
- F. - Eu estudei composição e regência no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro. Já o Cleberson, passou pela Escola Nacional de Música. No entanto, a nossa grande formação aconteceu nos bailes de salão. Essa relação que a gente mantém com o público durante os shows nós aprendemos tocando para essas platéias.

- O penúltimo trabalho de vocês, “Ouro de Minas”, resgata composições de autores mineiros. Como é voltar a Minas Gerais?
- M. - É muito bom. Faz muito tempo que a gente não se relaciona com essa turma toda. Quando a gente passa por aqui dá uma saudade danada de todos eles. A música nos "Bailes da Vida" (gravada por Bituca, em 1981, no CD Caçador de Mim, teve participação antológica do grupo) foi feita por Milton Nascimento em homenagem ao Roupa Nova.
- F. - Sou mineiro de Belo Horizonte. Contudo, acho que o disco, que teve a participação da Zélia Duncan, Luciana Melo, Elba Ramalho, Sandra de Sá e Ivete Sangalo, poderia ter tido uma aceitação melhor aqui no Estado.

- Como anda a carreira internacional do grupo?
- P. - Nós já estivemos em Portugal, Estados Unidos, Porto Rico e Paraguai, onde, inclusive, temos um público absurdo. Estamos em negociações para tocar na Espanha, África do Sul e Japão.
- F. - A gente prepara uma apresentação num teatro em Nova York. O show acontece em novembro.

- O público que acompanha o trabalho do grupo está sempre em mutação. Há uma nova geração curtindo Roupa Nova hoje?
- P. - É deliciosa essa relação. Há uma galera nova curtindo a gente e isso é maravilhoso. Nós devemos tudo que conquistamos aos fãs.
- F. - Sou um cara muito ligado na Internet e vivo com o laptop para cá e pra lá. Recentemente fiz uma pesquisa nela e descobri que 75% do nosso público hoje é composto por pessoas com idade entre 16 e 25 anos.

- Quais os planos futuros do grupo?
- P. - Nossa força está toda concentrada no selo Roupa Nova Music. Nós pretendemos, por meio dele, trazer grandes talentos esquecidos e mostrar outros desconhecidos para a mídia. Sabemos que a mídia é um pouco radical quando se fala no talento de alguns artistas.
- F. - Nós estamos focados no trabalho de edição do novo DVD “RoupAcústico II”, que tem as participações de Claudia Leite (vocalista do grupo Babado Novo), Tony Garrido (vocalista do Cidade Negra), Marjorie Stiano e do Pedro Mariano (irmão da cantora Maria Rita e também filho de Elis Regina). Estamos muito felizes com o resultado final do projeto.